domingo, 8 de fevereiro de 2015

domingo, 4 de dezembro de 2011

 A MÃO COBRINDO A VERGONHA

Laerte Braga
Um dos fatos mais destacados da semana terá sido a foto do interrogatório de Dilma Roussef numa Auditoria Militar do Rio de Janeiro. Os militares que integravam o Conselho Permanente de Justiça (complicado isso) cobriram o rosto com as mãos para não serem identificados.
Com certeza irão dizer que o gesto era necessário àquela época, que o País estava em guerra contra o “terrorismo”, coisas do gênero. Nem por um instante admitirão que se tratou de vergonha pura e simples.
Covardes têm vergonha.

É difícil entender a posição das Forças Armadas no que diz respeito às torturas praticadas ao longo dos anos de chumbo da ditadura. Por vários motivos. O primeiro deles é que os militares que assumiram o poder derrubando o governo constitucional de João Goulart o fizeram em cima de mentiras, que continuam sendo repetidas até hoje e sob comando de potência estrangeira. Tentavam chegar ao poder na presunção que eram os únicos capazes de governar o Brasil desde a queda de Getúlio em 1945. Perderam três eleições. Duas com o brigadeiro Eduardo Gomes e uma com Juarez Távora.
A quarta, curiosamente, ganharam com um civil, Jânio Quadros, derrotando um militar legalista, um dos grandes nomes da história das Forças Armadas. O marechal Henrique Lott. O azar foi que Jânio além de louco bebeu demais num dia e pôs tudo a perder.
No meio desse caminho algumas tentativas de golpe, o manifesto dos coronéis, toda uma trajetória até 1964. O embate se dava dentro das próprias Forças Armadas. Militares fiéis à legalidade e ao Brasil, caso de Lott, Moreira Lima e muitos outros deixam exemplos que é possível uma força armada comprometida primeiro com o seu País, segundo com a democracia.
A foto tem outro significado também. Serve para lembrar a presidente Dilma Roussef suas origens, seus ideais, justo num momento em que seu governo parece perder-se em meio ao peleguismo de setores do seu partido, alianças terríveis com setores podres da política e do empresariado brasileiro, enfim, talvez um tranco para que Dilma acorde a tempo.
Não é o caso dos tucanos, matriz do peleguismo de setores do PT. O sub-chefe da Casa Civil de José Serra no governo de São Paulo, o tal Faustino, foi preso numa operação no Rio Grande do Norte – Sinal Fechado –, num esquema de milhões de reais em corrupção e que fora tentado no governo Maluf, no governo Pitta, no governo Serra e ressurgiu com força no governo de Gilberto Kassab.
Privatização e terceirização. As formas mais rápidas do dinheiro entrar em caixa. No caso a CONTROLAR, uma quadrilha que vistoriava por tarifa módica os carros em Natal, em São Paulo e planejava atender a dez estados da Federação em curto prazo para regar as campanhas tucanas.
Tem o outro lado também. Um trabalho extraordinário do engenheiro Antônio Fernando Araújo mostra a cobiça sobre as águas no Brasil. Potências e empresas estrangeiras deitando olhos sobre nossos mananciais e com um apetite sem medida. Pior, aliados a empresários brasileiros, com a complacência de políticos venais.
Há anos os EUA tenta, por exemplo, uma base militar na chamada Tríplice Fronteira, na região de Foz de Iguaçu, onde é grande a população de palestinos, árabes de um modo geral, com a alegação que ali existem focos de terrorismo. Nem FHC empregado da Fundação Ford conseguiu vender esse peixe. Está ali o Aqüífero Guarani o quinto maior do mundo e na Amazônia acaba de ser descoberto um outro aqüífero fantástico, maior que o próprio rio.
O trabalho de Antônio Fernando Araújo é didático, revelador e presta-se a uma tomada de consciência do problema. Nem tudo na vida é a saída de Fátima Bernardes do JORNAL NACIONAL – o da mentira –. Esse “acontecimento” reflete apenas a disputa interna de poder na maior empresa de comunicação do Brasil, mostra que começa a cair o castelo de Ali Kamel – diretor geral de jornalismo – e vai tentar tapar os rombos na audiência matinal, já que dona Ana Maria Braga vem sendo sistematicamente batida pela principal concorrente a RECORDE o mesmo valendo para o BOM DIA BRASIL.
Não perceberam ainda que cada vez que Miriam Leitão aparece na telinha as pessoas se assustam e pensam que é invasão de monstros de outro planeta. O que não significa e nem tem nada a ver com Orson Welles. Welles era um gênio e Miriam Leitão uma variação de ornitorrinco.
Para além de nossas fronteiras continua a distorção sobre os fatos que acontecem no Oriente Médio, na tentativa de repetir na Síria o massacre que promoveram na Líbia. Encontram resistência maior, já que a Rússia de Putin não está disposta a aceitar o cerco que o complexo terrorista ISRAEL/EUA TERRORISMO S/A tenta impor ao seu país.
O “vilão” maior é o Irã. Uma reunião de líderes da falida Comunidade Européia mostrou o governador geral da atual Micro-Bretanha (antiga Grã Bretanha) David Cameron, exibindo sua face Tony Blair. A da mentira repetida sistematicamente na velha teoria de Goebells para que as pessoas acreditem nos bons propósitos dos súditos europeus de Washington.
A saída mais adequada para os países da Comunidade Européia seria tombá-los como patrimônio da humanidade, transformar tudo num grande parque turístico e pronto. O rei da Espanha, por exemplo, poderia exibir sua perícia de caçador de búfalos. Isso para os de cima e deixar o resto por conta da classe trabalhadora, expurgando banqueiros e grandes corporações. Do contrário levam o dinheiro todo e dona Christine Lagarde, gerente geral do FMI, já está no Brasil tentando convencer dona Dilma Roussef a investir em títulos podres de uma comunidade em processo de insolvência.
Sérgio Cabral, que finge governar o Rio de Janeiro – está vendendo o estado para empresários como Eike Batista que agora escreve livros de auto-ajuda – quer privatizar o Maracanã. Um dos símbolos do Rio, do Brasil e que tem sua imagem em todo o mundo.
Quem sabe o sogro (que tem a concessão de várias linhas de ônibus urbanos no Rio e vai pegar a do bondinho de Santa Teresa, lógico, macete velho) e a primeira dama não arranjam um jeito de colocar Luciano Huck na jogada.
Já não “legalizaram” a casa ilegal do cara em Angra? Ele já não andou dando declarações sobre vontade de participação política? Deve ter percebido que é mais negócio que aquela xaropada de todos os sábados à tarde. O deprimente espetáculo em versão terror da sociedade do espetáculo.
Olha! Se o senador Aluísio Nunes, um dos grandes nomes do tucanato saiu de Brasília para ir a Natal visitar o operador da quadrilha da CONTROLAR, preso pela Polícia Federal (já ganhou habeas corpus) na Operação Sinal Fechado, é que o negócio está prá lá de grave. Aluísio era o chefe do Gabinete Civil e Faustino o sub-chefe.
Na toca José Serra, o patético e que era o governador, como antes foi o prefeito.
Fora isso há uma expectativa que a OTAN possa usar suas forças para assegurar o direito de cidadãos norte-americanos saírem às ruas para protestar contra bancos, grandes corporações, governo, etc. É que a polícia está baixando o sarrafo, prendendo e arrebentando, no melhor estilo democracia cristã e ocidental. Seria o mais coerente não?
E a ficha limpa – que não vai mudar nada – ficou para mais tarde. Pedido de vistas do ministro Tófoli, nomeado por Lula e parceiro de Gilmar Dantas Mendes.
Não são só os militares que têm que cobrir os rostos com as mãos para esconder a vergonha. Tem muito mais gente.
Morreu Sócrates, um dos maiores jogadores de futebol de seu tempo. Um dos grandes do esporte em todos os tempos. Deixa lições de futebol e exemplos de coragem. Desafiou a ditadura militar em várias situações. Manifestou a crença que o futebol poderia e deveria ser um esporte livre de figuras como Ricardo Teixeira e outros tantos. Ao contrário dos militares que tamparam o rosto com as mãos para esconder a vergonha, Sócrates mostrava a cara a milhões de torcedores para mostrar sua coragem, do tamanho do seu futebol. 

domingo, 20 de novembro de 2011


Quando isenção é tomar partido!

Se jornalistas insultarem e caluniarem políticos sem prova alguma for sinônimo de liberdade de imprensa, o Brasil deve ser a pátria do jornalismo livre. Isso porque na imprensa brasileira o que mais se vê são colunistas furiosos com políticos acusados de corrupção aos quais chegam a tratar como condenados em última instância.
Aliás, vale lembrar que nem sendo inocentados pela Justiça os políticos dos quais a mídia não gosta passam a ser tratados como inocentes, sendo considerados culpados mesmo após a absolvição. José Dirceu, por exemplo, já foi inocentado de algumas acusações e a imprensa publicou as decisões da Justiça em pés de página, sem o destaque dado à acusação.
Todavia, caso recente ilustra bem como essa indignação do colunismo pátrio não passa de politicagem rasteira, verdadeira “pistolagem” contratada por certos políticos para atacarem seus adversários. O caso em tela é o do escândalo de centenas de milhões de reais envolvendo a construção da linha 5 do metrô de São Paulo.
O valor da roubalheira: R$ 300 milhões.
Porém, o assunto não causa a esses colunistas uma fração sequer da indignação que o ministro do Trabalho – só para ficarmos no alvo mais recente – vem lhes causando sob a acusação de ter voado em um jatinho supostamente providenciado pelo presidente de uma ONG acusada de corrupção.
Apesar de a decisão da Justiça de determinar a demissão do presidente do metrô paulistano ter derivado de uma iniciativa do jornal Folha de São Paulo, o assunto está sendo tratado por aquele jornal e pelo resto da mídia de uma forma inexplicavelmente discreta, respeitando o fato de que, até agora, não se pode condenar ninguém definitivamente.
Contudo, esses mesmos colunistas usam contra ministros de Dilma, por exemplo, linguagem que constrangeria qualquer torcida organizada de futebol e os tratam como condenados. Meras evidências são tratadas como provas. A simples abertura do processo judicial é tratada como condenação.
Quando um escândalo envolve tucanos e aliados, porém, esses mesmos colunistas não fazem nem mesmo análises. Fogem do assunto, ainda que alguns poucos, como Reinaldo Azevedo, da Veja, saiam em defesa dos seus protegidos.
Se o escândalo é tucano não há manchetes garrafais nas primeiras páginas, o Jornal Nacional se omite e colunistas se furtam até a analisar declarações saborosas como a de Geraldo Alckmin, que atribuiu ao antecessor José Serra a responsabilidade pelo caso do metrô ao dizer que está “à vontade” porque não era o governador quando o contrato da linha 5 foi assinado com as empreiteiras.
Esse escândalo deve submergir na mídia logo mais, assim como o das emendas parlamentares na Assembléia Legislativa de São Paulo, emendas que investigações insinuam que vêm sendo usadas pelo governo do Estado para subornar parlamentares, o que enquadra o caso no conceito midiático de “mensalão”.
Colunistas raivosos como Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes, Eliane Cantanhêde, Ricardo Noblat, Dora Kramer e tantos outros se tornam verdadeiros gatinhos diante da corrupção em governos tucanos como o de São Paulo, de Minas Gerais ou em qualquer outro governo estadual ou municipal administrado por partidos de oposição ao governo federal.
E o que mais espanta é que escândalos como o do metrô ou o das emendas não apenas envolvem cifras infinitamente mais altas do que as envolvidas nas acusações fracas contra um ministro como Carlos Lupi, mas também encerram indícios muito mais consistentes de envolvimento do Poder Executivo.
Ainda assim, esses colunistas mal tocam no assunto.
É lícito concluir, portanto, que veículos como Globo, Folha, Estadão ou Veja, só para ficarmos nos mais descarados, não combatem a corrupção, mas a alimentam, pois criam uma casta de corruptos com licença para roubar enquanto fustigam seus adversários políticos.
Este blog vem dando combate a essa anomalia já vai para quase sete anos. As hordas de internautas contratadas pela grande mídia e pelo PSDB para fustigar seus críticos na internet acusam o autor desta página de estar a serviço do PT, mas jamais conseguiram um só elemento que o ligue a políticos. E não foi por falta de procurarem.
Jamais encontrarão ligação alguma. Até forjá-la é difícil porque este blogueiro não se encontra com políticos, não telefona para políticos, não envia e-mails a políticos, não bajula políticos nas redes sociais… Enfim, este blogueiro sempre manteve distância da classe política e, sobretudo, do Estado e do dinheiro público.
Não que seja ilegal, imoral ou questionável ter proximidade com a classe política. Apenas não há interesse deste blog e de seu autor nesse tipo de relação. Por isso, podem continuar procurando porque jamais encontrarão algo que lhes permita fazer as suas famosas suposições acusatórias.
A grande verdade é que gostaria muito de poder fazer um trabalho mais isento, aqui. Gostaria de poder criticar os dois lados, pois tanto petistas quanto tucanos têm o que ser criticado. Todavia, se toda a grande imprensa fustiga um lado e acoberta o outro isso é anormal, é antirrepublicano e até criminoso.
Enquanto tivermos uma imprensa que se alia a alguns corruptos e com eles combate corruptos adversários, unir-se a ela em seu discurso maniqueísta, desonesto, mistificador, parcial e mentiroso equivale a ser tão corrupto quanto aqueles que ela denúncia de forma seletiva e que, às vezes, são acusados injustamente.
Os escândalos do metrô ou das emendas parlamentares em São Paulo ainda provam que há corrupção em qualquer administração pública e que a cobertura jornalística tem sido até correta, em alguma medida, pois não faz condenações prévias ou escandalizações, ainda que alguns digam que o Judiciário paulista é tucano e, portanto, precisa ser pressionado pela imprensa.
Em países como a França, por exemplo, a imprensa não poderia noticiar um escândalo como esse do metrô antes de uma decisão judicial. Todavia, não podemos nos esquecer de que a justiça francesa não é como a nossa, que a legislação francesa não propicia impunidade, o que torna a ação da imprensa daqui vital para pressionar o Judiciário a não se omitir ou até acobertar.
O que se quer, então? Que a imprensa não trabalhe para substituir um corrupto por outro no poder, para então acobertar os corruptos amigos.
O país que você quer, leitor honesto e apartidário que só busca a verdade, é um país em que todos sejam tratados pela lei e até pela imprensa como se fossem a mesma pessoa, seja para acusar na hora certa ou para não acusar antes da hora.
Enquanto um partido for tratado com dureza desproporcional e o outro com leniência irresponsável, todos estarão ameaçados, mesmo aqueles que estiverem do lado beneficiado, pois nunca saberão se em algum momento aquele benefício que recebem poderá mudar de lado, deixando-os na posição em que estão seus adversários hoje.
Um país civilizado é um país justo. País justo é aquele que não trata cidadãos, partidos, empresas, instituições, seja lá o que for com base em idiossincrasias políticas ou ideológicas ou interesses econômicos.
Contudo, vejo muita gente agir como se pertencesse ao estrato social e político que a imprensa e a Justiça beneficiam ao endossarem e apoiarem injustiças como as que este texto relata. É espantoso, porque essas pessoas só perceberão que estão de fora da festa no dia em que a parcialidade das instituições as atingir.
Não é porque você ganha vinte mil reais por mês, tem carros novos na garagem, um apartamento em um bairro “nobre” e uma casa na praia que faz parte dessa casta que está acima da lei e das próprias instituições. Você que apóia o que a imprensa faz, muitas vezes a troco de um pagamento irrisório para quem paga, saiba que um dia poderá estar do outro lado.
Viu a reação de Alckmin à decisão da Justiça que desfavoreceu seu governo, leitor? Fez pouco e já fala como se reverter a decisão que o manda demitir o presidente do metrô estivesse no papo. Cadê os colunistas que se indignaram com o ministro do Esporte apenas por ter sido indiciado ou com os indiciados no inquérito do “mensalão”, como se todos tivessem culpa provada?
Sumiram.
É injustiça da imprensa, é injustiça da Justiça, é injustiça dessa parte considerável da opinião publica (ou publicada) quando todos tratam casos semelhantes com tanta diferença. E essa diferença ainda pode pegá-lo, leitor injusto, pois, como dizia o Barão de Montesquieu, “Injustiça que se faz a um é ameaça que se faz a todos”. Do blog "Sem Mídia", por Eduardo Guimarães.

domingo, 13 de novembro de 2011

O PIG EM CONTAGEM REGRESSIVA!


Folha de São Paulo demite cerca de 40 jornalistas


Agência Folha, a mudança foi o fechamento da sucursal de Cuiabá (MT).
De acordo com o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo (SJ-SP), as demissões da Folha não têm justificativas, pois de acordo com a entidade, o faturamento do Grupo Folha, empresa que controla a Folha de São Paulo e o jornal Agora, tem aumentando nos últimos meses.
Em nota divulgada no site oficial do sindicato, o presidente José Augusto Camargo acusa o jornal de não levar a democracia a sério. “A recusa de negociar as demissões com o Sindicato demonstra o total desrespeito com a entidade e com os jornalistas. No caso da Folha, tal atitude é uma contradição a tão divulgada ‘democracia’ defendida pelo jornal, que na prática é apenas uma estratégia de marketing”.
Procurada pela reportagem do Comunique-se para explicar os motivos das demissões, a direção da Folha de São Paulo não pronunciou até o fechamento desta matéria.

sábado, 12 de novembro de 2011





“Não esperem que os partidos façam algo para enfrentar o poder da mídia”

No seminário realizado na Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul, a deputada Luiza Erundina (PSB-SP) contou um pouco de sua luta solitária na Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara em defesa da proposta de um marco regulatório para a mídia. “Não esperem que os partidos políticos façam algo para enfrentar o atual esquema de poder da mídia. Só com pressão social. Sou uma voz isolada na Comissão. Tento apenas incomodar um pouco".


Porto Alegre - Como é de seu estilo, a deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP) não colocou panos quentes ao falar sobre a relação entre a mídia e os políticos brasileiros, ou a imensa maioria deles, ao menos. “Não esperem que os partidos políticos façam algo para enfrentar o atual esquema de poder da mídia. Só com pressão social”, disse Erundina no debate sobre a democratização da mídia promovido, quinta-feira, na capital gaúcha, pela Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul (Ajuris), Associação Brasileira de Empresas e Empreendedores de Comunicação (Altercom) e Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social. 

“A sociedade”, acrescentou Erundina, “não é ouvida em questões estratégicas relacionadas à comunicação social”. “Há muita omissão no Congresso Nacional sobre esse tema”, garantiu a deputada que integra a Comissão de Ciência e Tecnologia, onde a proposta do marco regulatório está em debate.

Debate talvez seja uma palavra exagerada para definir o que está ocorrendo na Câmara, a julgar pelo relato da deputada Erundina. Segundo ela, os parlamentares que integram a Comissão não estão muito interessados em debater a sério o tema da regulação da comunicação social. A omissão que ela aponta manifesta-se em outras atividades parlamentares também. “Muitas vezes, os deputados avaliam pedidos de renovação de concessões de rádio e televisão no escuro, sem dispor de dados objetivos para tomar uma decisão”. 

Essa situação não é causada simplesmente por desinteresse. Pelo contrário, há muitos interesses em jogo. Segundo cadastro atualizado pelo Ministério das Comunicações, 56 deputados e senadores aparecem como sócios ou têm parentes no controle de emissoras de rádio e TV no Brasil.

“Sou uma voz isolada na Comissão de Ciência e Tecnologia, que discute o marco regulatório da mídia. Tento apenas incomodar um pouco”, admitiu Erundina, que lamentou o baixo número de parlamentares que se dedicam ao tema, inclusive na comissão que o discute. Essa omissão, para a deputada, prejudica a sociedade como um todo. “Não é que precisamos de um novo marco regulatório. Não temos um marco regulatório da comunicação social no Brasil. A democratização da mídia é mais importante hoje que a reforma agrária para o avanço da democracia no Brasil”, defendeu Erundina. A justificativa é simples: os principais adversários e obstáculos da reforma agrária encontram, nos grandes meios de comunicação, generosos espaços para propagandear suas ideias e atacar os defensores da reforma agrária, procedimento que se repete em torno de outras demandas sociais também.

Plataforma para marco regulatório da mídia


Na mesma linha da deputada Erundina, a jornalista Bia Barbosa, integrante do Conselho Diretor do Intervozes, manifestou pessimismo quanto à possibilidade desse debate avançar no Congresso Nacional. Ela lembrou o caso da Argentina, onde a “Ley de Medios” saiu com muita pressão popular. “Aqui tem que ocorrer o mesmo”, resumiu. Bia Barbosa defendeu a necessidade de discutir inclusive questões relativas a conteúdos, lembrando o caso recente de uma TV na Paraíba que exibiu, ao meio dia, cenas de um estupro de uma criança. “Não defendemos censura prévia para evitar casos como este, mas tem que haver responsabilização para esse tipo de prática. Achei lamentável a declaração da presidente Dilma de que o único controle que interessa é o controle remoto”, disse ainda a jornalista.

O principal temor das entidades da sociedade civil interessadas neste debate, assinalou a representante do Intervozes, é que o processo do marco regulatório seja prorrogado ad infinitum. Bia Barbosa divulgou o endereço www.comunicacaodemocratica.org.br que traz a plataforma da sociedade civil para o marco regulatório da comunicação. 

O texto é fruto de debates acumulados ao longo das últimas décadas, em especial na primeira Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), realizada no final do ano passado, em Brasília. Esses debates foram sistematizados no seminário Marco Regulatório – Propostas para uma Comunicação Democrática, realizado pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), com a participação de outras entidades regionais e nacionais, em maio deste ano, no Rio de Janeiro. A primeira versão do documento foi colocada em consulta pública aberta, recebendo mais de 200 contribuições, que foram analisadas e parcialmente incorporadas no texto.

A Plataforma da Sociedade Civil apresenta quatro razões em defesa de um novo marco regulatório para as comunicações no Brasil: (i) a ausência de pluralidade e diversidade na mídia atual, que estaria esvaziando a dimensão pública dos meios de comunicação; (ii) a legislação brasileira no setor é arcaica e defasada, não estando adequada aos padrões internacionais de liberdade de expressão e não contemplando questões atuais, como as inovações tecnológicas e a convergência de mídias; (iii) a fragmentação da legislação atual, composta por várias leis que não dialogam umas com as outras nem guardam coerência entre si; e (iv) a Constituição Federal de 1988 continua carecendo da regulamentação da maioria dos artigos relacionados à comunicação (220, 221 e 223), deixando temas importantes como a restrição aos monopólios sem nenhuma referência legal, mesmo após 23 anos de aprovação.


O Código Brasileiro de Telecomunicações é de 1962, quando a televisão estava engatinhando no Brasil, lembrou Venício Lima, sociólogo, jornalista e professor da Universidade de Brasília (UnB). As mudanças tecnológicas, observou, são uma das razões para justificar um novo marco regulatório da mídia. Outra muito importante, disse Venício Lima, é dar voz a quem hoje não tem direito a ela. “Só há liberdade de imprensa com muitas vozes, sem monopólio e com a máxima dispersão de propriedade”, defendeu. 

O professor da UnB também criticou a confusão deliberada feita entre os conceitos de liberdade de imprensa e liberdade de expressão. “Uma coisa é a liberdade individual de expressão, outra é a transformação da imprensa em grandes corporações”. 

E a liberdade de expressão, acrescentou Venício Lima, é incompatível com o monopólio no setor. “A propriedade cruzada dos meios de comunicação consolidou grupos empresariais que são proibidos pela Constituição. O mercado de comunicação precisa ter regulação, entre outras razões, para que haja competição entre as empresas e não monopólio”. 

Paradoxo aparente, a defesa da regulação anda de mãos dadas com um princípio que, em tese, é fundador do capitalismo: a competição. Pela resistência que vem opondo ao debate sobre a regulação, as grandes empresas de mídia parecem ter rompido definitivamente com esse princípio.